terça-feira, 3 de maio de 2011

Cazuza, meu Heroi Brasileiro


Pro dia nascer feliz...

Devo à minha mãe, Márcia, a oportunidade de ter conhecido desde cedo alguns dos principais músicos, cantores e bandas que povoaram a minha adolescência. Um repertório variado e eclético me acordava quase todas as manhãs de sábado. Vez ou outra me chamava a atenção uma voz rasgada e...como gritava, meu deus, o Cazuza! Além das músicas, havia as fotos e pôsteres que ela, minha mãe, colecionava. Colava nos cadernos da faculdade. Era lindo ele, o Cazuza. Suas letras, poses e voz sempre emanaram uma rebeldia que eram para mim ainda incompreensíveis.

A vida desse grande ídolo foi retratada em um filme com o Daniel Oliveira. Na minha opinião de pessoa totalmente leiga em assunto de cinema, posso dizer que o filme foi emocionante, só isso. A rebeldia de Cazuza ficou embotada pelas lágrimas e em muitos momentos torna-se vazia e sem causa. O “rebelde sem calça” (era como costumava brincar sobre si mesmo) foi injustamente retratado como um menino mimado, bajulado pelos pais, que não sabia o que queria. Tentaram, e tentam, limitar o grande artista, poeta e ser humano a (pré) conceitos pejorativos de Drogas, AIDS e bissexualismo.

É certo que foi de uma coragem imensa ao enfrentar sua doença de peito aberto, assumindo-a para sociedade. Porém, mais que um ícone da luta contra a AIDS, Cazuza era um rebelde contra a hipocrisia, a corrupção, o estado anestésico em que se encontrava a sociedade brasileira nos anos 80. O País estava saindo de uma ditadura e se deparava com a violência urbana, os altos índices de exclusão e o conservadorismo da tradição autoritária. Para se livrar das amarras da ditadura, alguns grupos e artistas rebelavam-se contra o sistema e o governo com posições que beiravam ao anarquismo, do tipo “sou contra tudo e todos”. A revolta era total, não havia nada a que se apegar. Mas ele, não. Cazuza tinha uma consciência política diferenciada desses grupos, sabia quem eram os inimigos do povo e do país, aqueles que levavam a sociedade ao imobilismo. E os denunciava.

O "rebelde sem calça"

Ainda hoje me admiro com a consciência de classe que demonstra em letras como “Burguesia”. Cazuza era burguês e sabia disso. Vinha de uma “boa família”, mas não se acomodou e nem se culpou por essa condição. Pelo contrário, se utilizou das oportunidades que recebeu para tentar mudar o mundo (“sou burguês, mas eu sou artista, e estou do lado do povo”). Com suas letras de críticas sociais cáusticas, escancarou a todos a manipulação da mídia e a entrega das riquezas nacionais aos países imperialistas. Amou, amou sem medidas nem preconceitos. Entregou-se intensamente à vida. Se muitos o veem como um marginal, eu o vejo como um cara com coragem para buscar a felicidade, recusando-se a obedecer aos padrões impostos por uma sociedade hipócrita.

Pra mim, mais que um ídolo musical, Cazuza foi um brasileiro que amou e defendeu seu país. Nos deixou a lição de que é preciso agir, se queremos transformar cultural, comportamental e politicamente a sociedade. E de que um país justo só se constrói com Pluralidade, Liberdade e Revolução!

“As pessoas vão ver que estão sendo roubadas
Vai haver uma revolução
Ao contrário da de 64”
(Trecho de “Burguesia”)
“(...)O momento é de criticar, de virar a mesa, de sair da merda. Antes eu me enrolei (na bandeira brasileira) foi aquele clima de Tancredo Neves. Eu estava, como todo povo, inebriado por um sentimento de mudança, de esperança. A coisa do vai-pra-frente, algo lindo, um movimento sincero que se esvaziou por erro dos políticos. No Rock in Rio, cantei por dez minutos com a bandeira, sonhei, acreditei. Quando eu era adolescente, também acreditava. A gente não tinha descoberto a vaselina, o conchavo. Entrava com garra mesmo. Nem sei mais se essa garra existe hoje com os novos adolescentes(...)
Mas os problemas do Brasil parecem ser os mesmos desde o descobrimento. A renda concentrada, a maioria da população sem acesso a nada. A classe média paga o ônus de morar num país miserável. Coisas que, parece, vão continuar sempre. Nós teríamos saída, pois nossa estrutura industrial até permitiria isso. O problema do Brasil é a classe dominante, mais nada. Os políticos são desonestos. A mentalidade do brasileiro é muito individualista: adora levar vantagem em tudo.
Educação é a única coisa que poderia mudar este quadro. Brasileiro é grosso e mal-educado, porque não pensa na comunidade, joga lixo na rua, cospe, não está nem aí. Este espírito comunitário viria com a cultura. Acho que o socialismo talvez possa trazer este acesso maior à cultura de massa. Fazer como o Mao Tsé-tung fez com a China. Educar todo mundo à força. Temos que estudar, ler, ter acessos a livros (...)” (Cazuza)
Trechos de “Cazuza por ele mesmo” em http://www.cazuza.com.br/






Um comentário:

  1. Cazuza marcou uma época da minha militância na Universidade Federal de Alagoas (Revertério) e, mesmo estudando em casa, ouvia a sua voz diferenciada e os seu gritos contra a classe dominante, mesmo ele sendo filho de burgueses."Estou sempre do lado do povo".
    Mirelly chorava e Cazuza berrava!

    Marcinhasarmentorodriguescâmara.

    ResponderExcluir