segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Mãos ao alto: os desafios de ser uma militante política

-Teje preso!   -Mas o que eu fiz?   -Filiou-se a um partido político
Num mundo que prega a “imparcialidade” a “neutralidade” e outras “semgracices”, ter opinião formada pode ser uma atitude vista com desconfiança. Filiar-se a um partido político, então, é como perder um naco da credibilidade que o mundo presenteia aos que cumprem com presteza à tarefa de seguir sem questionar. Se você, como eu, é também filiado a algum partido político ou organização política já deve saber: pertencemos a uma “categoria à parte”, que merece ser observada, questionada e vista com muita, mas muita desconfiança.

Claro que não me acho inferior, nem superior, nem nada disso. Somos todos iguais em potencialidades, defeitos e virtudes, acredito. Mas essa... vamos chamar de desconfiança, existe sim e podemos percebê-la a todo momento, nos mais variados meios. Desconfia-se dos políticos, de todos eles. Desde o deputado até do professor que insiste em apresentar idéias questionadoras em sala de aula. E não vejo a corrupção ou o mau desempenho da função por alguns eleitos como motivos capitais dessa desconfiança. Há uma resistência, um senso comum, uma idéia difundida na sociedade de que quem tem opinião formada é sempre suspeito para falar, que quanto mais “imparcial” é o sujeito, melhor.

Esse “senso comum” é na verdade um poderoso aparato ideológico difundido com o objetivo de manter as coisas exatamente do jeito que elas estão. Se não se questiona, nada é mudado. É a despolitização das instituições, das profissões, da economia, dos problemas, do Direito, da educação, das relações sociais. Despolitização de tudo e de todos. Assim, o professor deve ensinar estritamente o que está no programa, nada de dar opiniões. Se isso ocorre, há o risco de a faculdade, ou os próprios alunos, questionarem que a matéria não está sendo passada. Profissionais que ingressam em sindicatos passam a ser vistos como “arrumadores de confusão”. Estudantes que ingressam no Movimento Estudantil são preguiçosos que não gostam de estudar. Pessoas que se filiam a partidos políticos querem enriquecer, estão corrompidos ou são no mínimo... muito suspeitas!  São tempos em que integrar um partido não é crime, mas beira à imoralidade. A radicalização dessa situação pode levar a uma absurda criminalização da política, pelo Direito, pela moral e o senso comum.

POLÍTICA?    NÔU    NÔU    NÔU
No meio disso tudo optei por ser uma militante, por me filiar a um partido político, um partido Comunista, o PCdoB. Não sei se conseguiria me sentir confortável de outra maneira que não fosse questionando e apresentando opiniões. A desconfiança que recebo faz parte. Fiz essa opção primeiro por acreditar que é possível modificar a atual estrutura da sociedade. O mundo não foi sempre assim e não precisa ser assim para sempre. Não é justo nem natural que alguns poucos recebam tantos benefícios à custa do sofrimento de tantos outros. Segundo, por entender que somente de maneira organizada poderemos chegar às mudanças concretas. São nas organizações sociais que o povo traça suas estratégias, propõe e age com mais força. Refletindo mais a fundo, percebi que os problemas do Brasil são tão profundos e complexos que não basta somente atuar como estudante, ou como mulher, ou ambientalista ou em uma área limitada. Era preciso atuar como agente político, que remexe toda a estrutura da sociedade, que apresenta alternativas para grandes mudanças. Pra transformar de verdade, é preciso Poder de verdade. Os partidos são a forma através da qual a sociedade pode se organizar para atuar politicamente em nosso país. A disputa pelos espaços de poder é legítima, mas foi afastada do povo pelo discurso da corrupção e da despolitização.

"PRU ou PCCT ou PQV ou PTDO ou..."
 Claro que ninguém é ingênuo de achar que todos os partidos estão imbuídos apenas de questões ideológicas, que todos os políticos trabalham por uma causa coletiva e que não há desvios ou corrupção nesse meio. Há, claro e muito, até porque são espaços de grandes batalhas, que envolvem grande decisões e...muito dinheiro! Grande parte da culpa por essa visão deturpada da política se deve à maioria de políticos e partidos que trabalham de maneira meramente eleitoreira, quando não, corrupta. Esses vícios podem ser combatidos, sim, e isso apenas se faz convivendo com eles. Por isso mesmo defendo uma reforma política que valorize a questão ideológica dos partidos, favoreca a pluralidade e transfira para o centro da batalha eleitoral o debate de idéias, não o poder econômico ou influência pessoal do candidato.

É "de candidato"??
 Por vezes me deparo com medidas de restrição à presença de partidos e agentes políticos em determinados meios, eventos e lugares. São medidas tomadas a pretexto de garantir a integridade ou a imparcialidade, mas que demonstram exatamente o medo de alguém que tem opinião. Essa restrição na verdade é ofensiva para todos, pois subentende a falta de opinião dos demais presentes que, coitados, por serem tão vazios, correm o risco de serem influenciados ou ludibriados. No fundo é também o medo de não saber contrapor, questionar ou apresentar idéias contrárias. Ora, não há nenhuma idéia ou má intenção que não possa ser desmascarada por outra idéia!
vista a camisa, tome partido, seja lá ele qual for
O que eu acho é que a participação política deveria ser estimulada desde a escola, com noções de Direito Constitucional e de História do Brasil DE VERDADE (não a versão da carochinha). O ideal seria que o engajamento em partidos e organizações fosse sentido por todos como um dever de cidadão, não como um projeto pessoal ou uma forma de conseguir privilégios. A repulsa à política, aos partidos e organizações apenas favorecem aos que contam com a ignorância e a inércia do povo para permanecerem onde lhes convém. É preciso acabar com essa idéia de que ser democrático é não defender idéia alguma, é não ter uma bandeira. Isso é ser alienado. Democrático é abraçar o debate de idéias e respeitar as diversas opiniões, mesmo que contrárias às suas.

Ser filiada a um partido requer paciência e firmeza, por todas essas questões. Trabalhar por um projeto coletivo quando a corrente do rio nos leva a nadar por projetos pessoais às vezes faz eu me sentir uma E.T., é verdade! Há quem me olhe com pena, lamentando que uma pessoa tão inteligente (cof, cof) poderia estar cuidando da vida de uma maneira mais digna, sem esse negócio de partido. Com muita educação devolvo a pena: fico com a satisfação de cada vitória conquistada.

"Fico com a satisfação de cada vitória conquistada"

P.S Nem tudo está perdido. Enquanto à procura de um local pra realização de um evento do partido ouvimos que determinado teatro público "não abre para eventos de cunho político" (hã?), realizamos na semana passada uma excelente discussão sobre o Código Florestal, organizada pelo PCdoB, no auditório da Faculdade Maurício de Nassau, que nos recebeu em nome do bom debate e da democracia. Nossos agradecimentos.

3 comentários:

  1. Muito boa esta postagem. Pra vencer esses desafios , tem que ser de luta! Peço sua autorização para postar esse texto no blog da UJS-Pernambuco. ficaríamos grato!

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  2. Parabéns pelo texto é perfeito e irônico(coisa que ajuda a dar um tapa de luvas de pelicano), você escreve muito bem e sabe prender atenção em seu texto e direcionar o foco, seu texto me fez pensar e ver coisas do meu passado e presente, só uma pena que mesmo dentro de espaços como um partido politico ter opinião própria assuste também.

    Mas me deixa feliz, ver um texto como o seu e saber que é capaz mudanças acontecerem.

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