quinta-feira, 16 de maio de 2013

Os sonhos não envelhecem - Histórias do Clube da Esquina



Termino a leitura deste livro maravilhoso, que indico a todos os meus amigos. Márcio Guedes conta de forma bastante pessoal a história da sua amizade-parceria com Milton Nascimento, o “Bituca”. Mais que isso, revive e no nos faz “reviver” junto os sonhos, anseios, medos e desejos de um grupo de jovens que se reunia numa esquina qualquer, duma rua qualquer.

Parcerias brilhantes foram feitas e tudo se desenrola num tempo de censura e violência contra a juventude e a cultura popular. O livro narra um importante capítulo da música brasileira,com detalhes interessantíssimos do nascimento de cada canção e de encontros inusitados. O Clube da Esquina influenciou e continua influenciando músicos de todo o país e do mundo.

A todos que curtem música, cultura, cinema, arte, política, ou os que adoram uma boa história: não dá pra deixar de ler.

Alguns trechos:


" a juventude tinha a obrigação de transformar, não só a cidade, o planeta inteiro; a esperança de um novo tempo não era coisa  para ser só cantada em prosa e verso, mas pra ser construída com o risco da própria vida!"

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“Dentro da área dos camarins, me encontrei com um daqueles caras que conhecera no Sachinha. Era magrelo, de aspecto físico doentio e roupas simplórias. Vi Bituca chamá-lo de Gonzaguinha. Quando soaram os primeiros acordes do tema de abertura, foi um corre-corre e sobramos eu e Gonzaguinha. Levei-o até o lance de escadas da véspera. Ali nos sentamos e ficamos ouvindo, mais que vendo.
— "Travessia" é a música mais bonita que já ouvi na minha vida. — ele me confessou.

Bituca passou por nós e se dirigiu ao palco, com seu smoking que deixava aparecer as meias brancas. No mãozão direito, o Manículas Prospectus empunhava o violão. Deixou um sorriso tímido para trás, em nossa direção, e subiu. Aos primeiros acordes, nós já ouvimos a multidão ulular em aprovação. Bituca começou:

"Quando você foi embora...

Aplausos cobriram sua voz e ele continuou. Estava simplesmente demais. Gonzaguinha não conteve a emoção. Abraçou-me e, enfiando a cabeça no meu ombro, deixou rolar um pranto volumoso e cheio de soluços, enquanto lá no palco a garra da interpretação de meu irmão número doze transformava o rugido da multidão num uníssono emocionado, feito de milhares de vozes:

-Solto a voz nas estradas
já não posso parar
meu caminho é de peeeeedra...

Bituca estava consagrado. Não. Milton Nascimento estava consagrado. No camarim, Fernando abraçou Bituca e os dois, emocionados, tocados por aquela enorme receptividade, aquela comunhão maravilhosa com o público, foram assim festejados, entrevistados e fotografados.”

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 “Até a censura, podando e mutilando a maioria de nossas letras naquele álbum, serviu para dar ao resultado final aquela aparência híbrida, meio lagarta, meio borboleta, em que vozes soavam como instrumentos e instrumentos soavam como vozes, ambos se empenhando visceralmente em comunicar o conteúdo emocional e as conotações políticas das canções, tanto ou mais claramente do que nossas próprias palavras censuradas teriam conseguido.”

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“— Não devemos aceitar provocação. Vamos nos reunir pacificamente com os companheiros das outras escolas. Nossa disciplina é nossa força. — Essa tinha sido a recomendação mais reiterada na falação do comando estudantil. Nas Ruas precedentes, tínhamos sido saudados com papel picado jogado do alto dos prédios por uma população que sentia na pele quatro anos de arrocho e perda de direitos e não estava mais nem um pouco disposta a fazer outra Marcha com Deus pela Família e pela Propriedade, nem dar mais ouro pelo bem do Brasil e nem ceder a mais nenhum apelo da ditadura para caçar comunistas. O povo estava é de saco cheio de tanto arbítrio. Daí estar nos saudando daquela forma, com papel picado. Mas no local da concentração e encontro com a estudantada dos outros colégios, havíamos caído numa emboscada. Estávamos encurralados e era salve-se quem puder. Estudantes e transeuntes apanhavam igual.”

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“Numa daquelas reuniões na varanda da Rua Divinópolis, eu e Tavinho Moura compusemos "Como Vai, Minha aldeia". Enquanto eu escrevia num papel ao lado de Tavinho, papai Salomão saiu de dentro de casa com um jornal na mão, mostrando-nos a foto do corpo de Che Guevara crivado de balas. Aquela tinha sido uma das notícias mais chocantes daqueles tempos, a morte de Che na Bolivia. Depois que papai se retirou, completei a letra (...)”

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Jolie e a sociedade asséptica




"Eu vejo as placas dizendo
'não corra, não morra, não fume'
Eu vejo as placas cortando o horizonte
Elas parecem facas de dois gumes"
(Engenheiros do Hawaii)

Que ninguém subestime o poder da comunicação na formação dos padrões ideais de vida de uma sociedade. Aliás, a melhor maneira de se promover um estilo, um comportamento, é propagandear o quanto ele é importante, necessário, inevitável, símbolo de status. Se a propaganda for bem feita, é questão de tempo até que o tal “way of life” vire tendência e logo após, Lei.

É preocupante o constante e cada vez mais invasivo policiamento do estilo de vida das pessoas. Cada vez mais não podemos fazer isso ou aquilo, comer tal coisa, usar tal produto, ser de tal jeito. Rumamos gradativamente para  uma sociedade sem identidade, incolor, insípida, inodora. Uma sociedade asséptica.  

Criam-se modelos aos quais devemos aspirar
Penso naqueles filmes dos anos 80 que retratavam a humanidade do futuro: sem cabelo, sem expressão, alto grau de padronização e de controle dos desvios desse padrão. Homens que de tão padronizados chegavam a ser desfigurados.  Não parece um futuro absurdo quando pensamos no aumento assustador de procedimentos cirúrgicos que são realizados e que há neles um determinado padrão buscado quase que unanimemente.

A fórmula é quase sempre a mesma: encontra-se o vilão, que pode ser  a violência, a diabetes, ou a fome, a depressão, o aquecimento global, as DST´s, ou as mortes no trânsito. Então, na busca pela erradicação desses problemas que são sim, reais, o enquadramento do indivíduo a determinado modelo de conduta se apresenta como uma solução milagrosa.

Tal solução, porém, é falsa porque, na real, a origem desses problemas é eminentemente de ordem pública, assim como as soluções. E é exatamente esse um dos  papeis da padronização: tornar cada vez mais distantes as reflexões em âmbito coletivo, empanturrando indivíduo de responsabilidades, de regras, de culpas. Não somos mais seres humanos em busca de realizações, mas sim, problemas ambulantes. Somos culpados porque fumamos, bebemos, usamos roupas inadequadas, nos exercitamos pouco, trabalhamos muito, gostamos de comer coisas gostosas, fazemos sexo, ficamos velhos, jogamos lixo na rua, temos câncer, enlouquecemos.
Ministro japonês e a "solução" para velhice:
 "idosos devem  se apressar em morrer"

Caso recente da Angelina Jolie me alertou. Sem entrar na condição pessoal da atriz nem da necessidade do procedimento no caso específico, me assusta o caráter com que essa notícia está sendo divulgada. Não é apenas informativo, é apologético. Mulher retira os seios e o ovário como forma de prevenir câncer. Não qualquer uma, mas uma que é estereótipo do padrão “magra,branca,famosa, engajada, recuperada do passado ‘transviado’”. 4 dias depois já está totalmente recuperada, seios reconstruídos. Normal, heroico. Sinto cheiro de tendência.

Ela não estava com câncer. Retirou os seios e fará o mesmo com os ovários por que  há possibilidades grandes de desenvolver a doença, que em muitos casos é fatal. Novamente sem julgar a decisão particular de Angelina, mas será que quem tem câncer tem mesmo que morrer? Será que se houvesse um sistema público eficiente no diagnóstico precoce e no tratamento da doença precisaríamos nos mutilar de forma “preventiva”? Será que os nossos seios e ovários é que são culpados pela doença ou é a estrutura pública de saúde que não atende à população como deveria?

Cada um desses padrões nos mutila. E é difícil, porque todos queremos viver em sociedade, queremos ser aceitos. Temos que nos adequar. É triste que um dos centros da preocupação da humanidade seja a busca em atingir esses padrões. São praticamente os únicos estímulos que recebemos socialmente. Se não, qual o estímulo à elevação das consciências, ao resgate dos valores mais elevados da humanidade, qual propaganda da cultura que reflete o que o homem conseguiu construir de melhor nessa nossa longa jornada pela Terra?



Mais reflexões aqui: "A civilização do desalento"

terça-feira, 7 de maio de 2013

É faroeste, cabôco!


Qualquer um que trabalhe com segurança sabe os limites entre proteger e pôr em risco uma comunidade. Abrir fogo em de uma área residencial não é apenas um erro, mas um crime. Seja aqui no meu bairro, nos EUA, na Ponta Verde ou na favela. Qualquer profissional possui limites para atuar na sua profissão e deve respeitá-los, mesmo que esteja cheio de boas intenções, até mesmo na tentativa de fazer o que acha melhor para o resultado do seu trabalho.

Aqui, não existem dois lados: quem está do lado da polícia e quem está do lado do bandido. Nesse caso não estou do lado de nenhum dos dois. Errado estava o traficante, por motivos óbvios, errada também foi a condução da operação por abusar das suas prerrogativas e por em risco pessoas inocentes que poderiam ter sido atingidas.

Trabalhar com segurança pública é perigoso? Sim é. Muitos policiais trabalham em condições subumanas, pondo em risco suas vidas e de sua família diariamente? Sim é verdade, e é revoltante que seja assim. Porém essas condições não os legitimam a agir deliberadamente contra a lei e ignorar todas as regras básicas de proteção à comunidade, como nesse caso da perseguição.

Então sou a favor da impunidade para o traficante? Claro que não! É absurdo considerar que fazer críticas ao trabalho da polícia é defender bandido. Ninguém está acima do bem e do mal, e a polícia comete erros sim, e muitos. Mas se nós, cidadãos, não pudermos apontá-los, quem o fará?

Já adianto que não sei que tipo de solução deveria ser empregada naquele momento. Não sou especialista no assunto, não recebi formação nenhuma para tal. Mas com certeza deve haver alguma. E se não houver, precisa ser pensada rapidamente. Mas de uma coisa tenho certeza: Abrir fogo em área residencial pondo em risco a vida de inúmeras pessoas para caçar um traficante, por mais perigoso que ele seja, não é uma alternativa racional em nenhum lugar do mundo! É abusiva onde quer que ocorra.

Apoio totalmente a luta por melhorias em todo o sistema de segurança pública. Apoio a luta justa por incentivos e reconhecimento, por condições dignas de trabalho dos profissionais comprometidos em garantir a nossa segurança. Imagino que, no dia a dia, tomar decisões em situações limite deve ser barra e que muitas vezes são os indivíduos que acabam pagando por deficiências de um sistema quase falido. Luto por tudo isso, mas sem deixar de defender o meu direito de sair de casa sem ser atingida por uma bala. Seja disparada pelo do bandido, seja pelo mocinho. Me recuso a concordar que nossa única alternativa seja viver como nos antigos filmes de faroeste, no meio de um BANG BANG.

OBS: Enquanto escrevo este post, recebo a notícia de mais um assassinato em Maceió. A questão da violência é gravíssima e apenas com a reunião de forças da sociedade poderá ser resolvida. Autoridades,sociedade e governos  precisam fazer esse debate urgente, de maneira séria. Enquanto isso, continuamos a "acender velas" na TV.