quarta-feira, 15 de maio de 2013

Jolie e a sociedade asséptica




"Eu vejo as placas dizendo
'não corra, não morra, não fume'
Eu vejo as placas cortando o horizonte
Elas parecem facas de dois gumes"
(Engenheiros do Hawaii)

Que ninguém subestime o poder da comunicação na formação dos padrões ideais de vida de uma sociedade. Aliás, a melhor maneira de se promover um estilo, um comportamento, é propagandear o quanto ele é importante, necessário, inevitável, símbolo de status. Se a propaganda for bem feita, é questão de tempo até que o tal “way of life” vire tendência e logo após, Lei.

É preocupante o constante e cada vez mais invasivo policiamento do estilo de vida das pessoas. Cada vez mais não podemos fazer isso ou aquilo, comer tal coisa, usar tal produto, ser de tal jeito. Rumamos gradativamente para  uma sociedade sem identidade, incolor, insípida, inodora. Uma sociedade asséptica.  

Criam-se modelos aos quais devemos aspirar
Penso naqueles filmes dos anos 80 que retratavam a humanidade do futuro: sem cabelo, sem expressão, alto grau de padronização e de controle dos desvios desse padrão. Homens que de tão padronizados chegavam a ser desfigurados.  Não parece um futuro absurdo quando pensamos no aumento assustador de procedimentos cirúrgicos que são realizados e que há neles um determinado padrão buscado quase que unanimemente.

A fórmula é quase sempre a mesma: encontra-se o vilão, que pode ser  a violência, a diabetes, ou a fome, a depressão, o aquecimento global, as DST´s, ou as mortes no trânsito. Então, na busca pela erradicação desses problemas que são sim, reais, o enquadramento do indivíduo a determinado modelo de conduta se apresenta como uma solução milagrosa.

Tal solução, porém, é falsa porque, na real, a origem desses problemas é eminentemente de ordem pública, assim como as soluções. E é exatamente esse um dos  papeis da padronização: tornar cada vez mais distantes as reflexões em âmbito coletivo, empanturrando indivíduo de responsabilidades, de regras, de culpas. Não somos mais seres humanos em busca de realizações, mas sim, problemas ambulantes. Somos culpados porque fumamos, bebemos, usamos roupas inadequadas, nos exercitamos pouco, trabalhamos muito, gostamos de comer coisas gostosas, fazemos sexo, ficamos velhos, jogamos lixo na rua, temos câncer, enlouquecemos.
Ministro japonês e a "solução" para velhice:
 "idosos devem  se apressar em morrer"

Caso recente da Angelina Jolie me alertou. Sem entrar na condição pessoal da atriz nem da necessidade do procedimento no caso específico, me assusta o caráter com que essa notícia está sendo divulgada. Não é apenas informativo, é apologético. Mulher retira os seios e o ovário como forma de prevenir câncer. Não qualquer uma, mas uma que é estereótipo do padrão “magra,branca,famosa, engajada, recuperada do passado ‘transviado’”. 4 dias depois já está totalmente recuperada, seios reconstruídos. Normal, heroico. Sinto cheiro de tendência.

Ela não estava com câncer. Retirou os seios e fará o mesmo com os ovários por que  há possibilidades grandes de desenvolver a doença, que em muitos casos é fatal. Novamente sem julgar a decisão particular de Angelina, mas será que quem tem câncer tem mesmo que morrer? Será que se houvesse um sistema público eficiente no diagnóstico precoce e no tratamento da doença precisaríamos nos mutilar de forma “preventiva”? Será que os nossos seios e ovários é que são culpados pela doença ou é a estrutura pública de saúde que não atende à população como deveria?

Cada um desses padrões nos mutila. E é difícil, porque todos queremos viver em sociedade, queremos ser aceitos. Temos que nos adequar. É triste que um dos centros da preocupação da humanidade seja a busca em atingir esses padrões. São praticamente os únicos estímulos que recebemos socialmente. Se não, qual o estímulo à elevação das consciências, ao resgate dos valores mais elevados da humanidade, qual propaganda da cultura que reflete o que o homem conseguiu construir de melhor nessa nossa longa jornada pela Terra?



Mais reflexões aqui: "A civilização do desalento"

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