segunda-feira, 26 de maio de 2014

Encontro



Estão à beira da mureta, embaixo as ondas quebram. As pernas dela balançando, na verdade queriam caminhar no ar. Ele apenas observava o mar muito calmo e escuro, iluminado por uma luz de estrela ou de barco. Nenhum dos dois queria sair dali. Haviam se encontrado por acaso, mas era como se tivesse sido ontem.

Parecia que todas as palavras eram ditas no silêncio, ele angustiou-se e entusiasmou-se, com o silêncio e com as palavras.

 - Sexo não é apenas o que fazemos com um outro corpo na cama, o grande sexo é aquele que fazemos com o mundo, com todas as pessoas à nossa volta, com os nossos sonhos individuais e com os sonhos coletivos.

Ela sorriu e já sabia onde essa conversa iria terminar. Mas não tinha certeza.

- Quando transamos com o mundo, lutamos com ele, vencemos e somos vencidos, a explosão de prazer é aquela de lutar pela vida, sem precisar se esconder, ou vender-se, nem barato nem caro.

- Você não era tão ligado nessas conversas transcendentais... sexo com o mundo e etc... (pausa, acendeu um cigarro). Acho que todos nós, algum dia, nos vendemos por alguma coisa que achamos que vale a pena.

 - A transa do corpo satisfaz quando já está satisfeita antes de acontecer. É como a medalha do atleta que enfrentou todos os obstáculos, e venceu. E nenhuma corrida tem graça sem troféu no final...

Ela queria concordar, mas não precisava mais.

- Pois para mim sexo é somente isso: sexo. Corpos, prazer, paixão, vontade. É como comer. É bom, é doce, é físico. O mundo e as outras pessoas não têm nada a ver com isso. Sabe, às vezes acho até que eles atrapalham....


Risos dos dois. O mar fica mais escuro e quase some. Não fosse a lua, alguém poderia cair naquele mar.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Escolhas definitivas por segundo




Não há uma maneira correta de se viver. Na verdade, não há UMA maneira de se viver. Pode-se viver de várias formas. Porém essa escolha deve ser feita antes do momento passar, porque depois...o passado é apenas UM e nunca poderá ser mudado. Não nos lastimemos por isso, que o pesar em nada diminuirá essa angústia de que viver é fazer uma escolha definitiva a cada segundo. O que nos resta, e já é muito, é escolher o próximo segundo, horas, dias, planos.

Escolhendo e vivendo, mas também é preciso avaliar, pensar, fazer o balanço do que se viveu. O erro é inevitável ao ser humano. E considerando que a cada segundo fazemos uma escolha definitiva, a probabilidade de erro é imensa. Aprender com os erros e ter domínio da própria lógica, que nos fez fazer certas escolhas, pode ser a diferença entre amadurecer com sofrimento ou sofrer sem amadurecimento.

Errar nem sempre é sofrer - às vezes, e são muitas, se sofre por conta do acerto. E não está provado que felicidade é ausência de sofrimento, está? Também há o erro sem sofrimento, esses por presunção ou por convicção. Parece a mesma coisa, mas não é. Parece que errar só vale a pena com integridade e integridade tem a ver com dar o melhor pedaço de si. Cuidemos, que integridade e convicção não podem transformar o erro em acerto. O próximo segundo, sim.

Quando insistimos no mesmo erro, talvez seja momento de avaliar nossa lógica interna, aquela que aprendemos ao longo da vida e que usamos para tomar nossas decisões definitivas por segundo. A lógica interna nada mais parece ser do que nosso ranking pessoal de princípios e valores. Se estamos errando talvez o erro esteja no que acontece antes mesmo de tomarmos a decisão.

No fim, podemos ter a ilusão de que o que vivemos são reflexos do que fazemos. Será tolice achar que há tantas variáveis no mundo e que nossa ação é apenas mais uma dentre as infinitas ações que ocorrem à nossa volta a todo momento? Não, não somos escravos das consequências de nossas ações, mas sim de tudo o que ocorre neste momento no universo. Ocorre é que dentre todas as variáveis, apenas sobre uma podemos ter o controle, e por isso mesmo o perdemos tantas e tantas vezes: nossas escolhas definitivas por segundo. Faça-mo-las!