sexta-feira, 20 de junho de 2014

O incrível mito da mulher que voa


  

Foi o capitalismo moderno que abriu as portas do mercado de trabalho para as mulheres. Oportunidade de emprego e qualificação profissional. É fato que hoje um diploma torna a mulher bem mais “valiosa” para a família e para o mundo do que prendas domésticas.

No fim da década de 60, a revolução sexual, as demandas de marcado e o movimento feminista apontaram o rumo do destino das mulheres: a busca da gloriosa carreira profissional. Deixaram de ser prioridades femininas a família, a criação dos filhos, a “carreira doméstica”. Como não há ação sem reação, esse novo papel feminino que nos é apresentado entra em contradição com o conceito que culturalmente é projetado para as mulheres. A mulher que trabalha, prioriza a carreira profissional, a independência, tem demandas próprias, agenda lotada, e é, se considerarmos os estereótipos vigentes, “masculinizada”. Uma mulher que precisa de um homem suficientemente "seguro" para acompanha-la. Essa é a mulher que somos, essa é a nossa geração. Em sua recente coluna, largamente divulgada pela redes, Ruth Manus questiona se estarão os homens preparados para lidar com as mulheres dessa geração. Se não estão, deveriam estar, certo? Certo, mesmo??

Como me inquieta, preciso questionar: será nossa sina vagar de esteriótipo em esteriótipo, a mercê das demandas do mercado e do sistema? Sim, porque nada mais claro para mim do que a grande farsa que é esse mito de que a mulher realizada profissionalmente é que é a mulher livre e independente. De que devemos deixar nossas casas com empregadas e os filhos com a babá. Que as tarefas domésticas são de importância secundária e por isso as tradicionais “donas de casa” devem ser libertadas dessa “humilhante” função. Que o certo é desejar chegar ao topo profissional e que quem se contenta com um "empreguinho meia boca" em troca de algumas horas de tempo livre é medíocre e acomodada. De que podemos ser mães aos 50 anos e que nossos maridos devem ser "seguros" o suficiente para desejar uma esposa que tem que marcar uma hora na agenda para os encontros do casal. Olha, quem quiser ser assim, que tenha a possibilidade de ser, mas acho que não é o que todas as mulheres querem ser.

A mulher deve poder escolher o que quer ser. Já vi amigas serem criticadas porque tomaram a decisão de abandonar a carreira profissional para cuidar dos filhos. Que isso é uma atraso, antiquado, é voltar atrás na história. Por quê? Porque ela não vai mais produzir economicamente? E desde quando a capacidade de produção econômica é critério para se definir felicidade?

O que ocorreu na verdade foi que tentamos combater um estereótipo criando outro. Devemos lutar por mais oportunidades para as mulheres, mais espaços de decisão na sociedade, pela liberdade de exercer sua sexualidade e sua afetividade da forma que cada uma quiser e desejar. Assim como os homens, porque eles também são pressionados a se adequar a determinados padrões de comportamento que muitas vezes não correspondem a seus desejos e vontades pessoais.  A libertação dos estereótipos deve ser para todos, homens e mulheres. Não acho que os homens devam ser criados para desejar mulheres desse ou daquele tipo. Todos nós, homens e mulheres devemos ser criados aprendendo as respeitar e aceitar os outros seres humanos e a buscar no mar da diversidade aquele que melhor se encaixa no seu jeito de ser.

Se é agradável se relacionar com alguém que não tem tempo pra uma boa conversa, está sempre estressado, trabalha 25 horas por dia, está sempre com o celular apitando e atrasado para alguma reunião? Não né, nem homem, nem mulher. Isso não é ser moderno e seguro, de onde foi que tiraram isso??!!! Querer o parceiro mais presente, ajuda-lo a desacelerar, voltar a ter tempo para um bom livro, um filme, curtir os filhos, fazer uma viagem, cuidar da casa, cozinhar, etc, não é voltar no tempo. É simplesmente ser mais humano.

Camille Paglia
P.S.1 : Em recente entrevista a feminista (ou antifeminista para alguns) Camille Paglia fala exatamente desse novo esteriótipo da mulher superprofissional. Se você gostou do texto da Ruth Manus, aqui está uma opinião diferente.
“Para mim, feminismo é a luta por oportunidades iguais para as mulheres. Ou seja: remover qualquer barreira que atrapalhe o avanço na educação superior e no mercado de trabalho. O feminismo deveria encorajar escolhas e ser aberto a decisões individuais. As feministas estavam erradas ao exaltar a mulher profissional como mais importante que a mulher mãe e esposa. Uma geração inteira de profissionais americanas adiou a maternidade e, quando finalmente decidiu engravidar, não conseguiu encontrar parceiro ou teve problemas de fertilidade.” http://revistaepoca.globo.com/vida/noticia/2012/03/camille-paglia-o-feminismo-nao-e-honesto-com-mulheres.html

P.S.2: Sim, os homens nos querem por perto e precisam da nossa dedicação. Se ouvirmos com carinho ao invés de nos sentirmos cobradas e ameaçadas, talvez role a parceria que tanto almejamos. Com a palavra, eles: http://www.youtube.com/watch?v=J-4A0EDF5tI

“Você e essa agenda egoísta
É um grande risco se seguido a risca
Pois te consome o tempo voa
E é fato consumado a tua ausência ecoa”

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