quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

As botas viajantes de Eleanor Antin

Em leitura do Livro “Imagens Cintilantes” (Camille Paglia), deparei-me com essas intrigantes imagens:












Essas botas viajaram por 51 fotografias, da Califórnia a Nova York. São 50 pares de botas de borracha, retratadas pela artista Eleanor Antin e enviadas para personalidades em várias partes do mundo. O conjunto de imagens forma uma só obra, denominada “100 botas”, atualmente em exposição MoMA, San Francisco.

O que me encantou nas imagens foi a capacidade de evocar sentimentos paradoxais: seres inanimados que emanam sentimentos humanos, as botas caminham sempre em conjunto uma jornada que por vezes parece solitária. As protagonistas caminham impassíveis à paisagem, da mesma forma que dela fazem parte. São engajadas e alheias à realidade. Iradas, apressadas, contemplativas, elas trilham caminhos inóspitos e paisagens urbanas. Algumas vezes parecem cantar, outras, apenas seguem, superando obstáculos que surgem no caminho.

Ao fim da série, é possível até sentir um certo afeto pelas “amigas viajantes”. As fotografias parecem dar vida às botas, ou o contrário. Só a arte é capaz disso. 

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Tinha um castelo no meio do caminho: viagem ao Castelo Armorial do Reino Encantado






Em nossas andanças pela rota do sertão Pernambucano, adentramos no município de São José do Belmonte. Familiarizados à paisagem sertaneja, fomos surpreendidos com a aparição de um imenso castelo à margem da estrada, acima os dizeres: “Castelo Encantado”.

Que linda e grata surpresa! O castelo em estilo medieval possui em suas colunas e janelas reprodução de figuras folclóricas que lembram as xilogravuras dos cordéis. Animais alados, anjos, criaturas fantásticas, reis, e por um momento fomos teletransportados para um cenário imaginário de lendas e mitos de antigamente. Paramos, brincamos, nos encantamos. Infelizmente estava fechado e não pudemos vislumbrar o que havia por dentro, sendo que o mistério daquela intrigante construção não podia ficar sem solução: vamos ao google!

O Castelo Armorial do Reino Encantado é o único castelo armorial do mundo, e fica próximo à Pedra do Reino, local que foi palco do famoso romance de Ariano Suassuna (Romance d’ A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-volta) que virou série de televisão. O castelo é um monumento ao Movimento Armorial, criado em 1970 sob a liderança de Suassuna.

O lugar é repleto de reproduções coloridas de obras dos xilogravuristas e cordelistas J. Borges, Paulo Borges e J. Miguel, dos iluminogravuristas Deborah Brennanad e Zélia Suassuna e do escritor Ariano Suassuna. São mais de 60 obras, dentre pinturas, esculturas, bonecos, mapas, instrumentos musicais e objetos que retratam o cotidiano e o imaginário da cultura popular sertaneja. Ao que parece, será destinado à visitação pública e amostras culturais.

E esse foi o primeiro ponto de parada em nossa viagem de férias. O Castelo Encantado é uma verdadeira obra de arte, que pega de surpresa e encanta os viajantes desavisados e homenageia lindamente a fantástica cultura popular nordestina. Adorei!






segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Ganhei na mega sena acumulada



Hoje é um daqueles dias que a gente carrega pra vida toda, que a gente recorda e acumula; e recordações são muitas, de amor e de prazer, de saudade e de carinho, de desejos e de realizações. De acúmulo, são DOIS mais muitos, hoje é o aniversário de dois anos de meu casamento com Mirelly, minha princesa, minha cama de pétalas, minha fortaleza.

Nesses dois anos vivemos de tudo e com muita intensidade, como é de ser na minha vida. Foram coisas boas, maravilhosas, saborosas e outras confusas e problemáticas também. Porque "pra conservar o amor, há que se inventar uma forma inédita de amar..."

No dia do nosso casamento, meu amigo Lucivaldo nos disse que pra viver um grande amor é preciso ter "muuuuuita paciência", e isso é o que Mirelly tem como nunca imaginei que alguém tivesse, dum jeitinho que dobra o cabra e bota sempre no seu aconchego pra amar e querer ainda mais bem.

Hoje eu tenho trilho, tenho linha e tenho órbita pra viver esse grande amor.

12.01.2015



Aconteceu



A Guerra começou. Onde está a guerra?




Tá rebocado meu compadre
Como os donos do mundo piraram
Eles já são carrascos e vítimas
Do próprio mecanismo que criaram
(As Aventuras de Raul Seixas Na Cidade de Thor)

As décadas anteriores foram marcadas pelo discurso do "multiculturalismo", da "aldeia global". Muitos alardearam o fim das fronteiras nacionais e o início de um grande e único mercado global, cujo ápice foi a criação da União Européia. Hoje, com a crise global se agudizando, o discurso da "tolerância" desmorona e em seu lugar retornam a xenofobia, o protecionismo e o fascismo. 

Tal como em 11 de Setembro, o ataque à revista francesa, um ato de terrorismo covarde e condenável, é o pretexto aguardado para o endurecimento das relações com os povos árabes. A marcha em defesa da "liberdade de expressão", cujos alguns participantes são diretamente responsáveis por genocídios de populações inteiras, além de censura e manipulação da mídia em seus próprios países, traz velada a mensagem de que duros tempos estão por vir.

O "perigo vermelho", que antes justificava as intervenções e guerras imperialistas, agora é chamado de "guerra ao terror". Os inimigos mudam de nome, mas os interesses permanecem os mesmos: busca por lucros e hegemonia cultural, proteção do mercado interno e domínio de territórios estratégicos.

O perigo é que, com o agravamento da crise, a sanha dos mercados leve o mundo à beira de uma nova grande guerra, em proporções globais.

Fiquemos com as reflexões de Camus, num prelúdio à Segunda Guerra Mundial:

“A guerra começou. Onde está a guerra? Fora das notícias em que se deve acreditar e dos anúncios que se dever ler, onde encontrar os sinais do absurdo evento? Ela não está nesse céu azul sobre o mar azul, nesses cantos estridentes de cigarras, nos ciprestes das colinas. Não é esse recente aumento de luz nas ruas de Argel. Queremos acreditar nela. Procuramos seu rosto e ela nos recusa. Somente o mundo é rei e seus rostos magníficos. Ter vivido o ódio dessa besta, tê-la diante de si e não saber reconhecê-la. Tão poucas coisas mudaram. Mais tarde, sem dúvida, surgirão a lama, o sangue, a imensa repugnância. Mas por hoje provamos que o início das guerras é parecido com os princípios da paz: o mundo e o coração os ignoram.”

Albert Camus
Setembro de 1939