segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

A Guerra começou. Onde está a guerra?




Tá rebocado meu compadre
Como os donos do mundo piraram
Eles já são carrascos e vítimas
Do próprio mecanismo que criaram
(As Aventuras de Raul Seixas Na Cidade de Thor)

As décadas anteriores foram marcadas pelo discurso do "multiculturalismo", da "aldeia global". Muitos alardearam o fim das fronteiras nacionais e o início de um grande e único mercado global, cujo ápice foi a criação da União Européia. Hoje, com a crise global se agudizando, o discurso da "tolerância" desmorona e em seu lugar retornam a xenofobia, o protecionismo e o fascismo. 

Tal como em 11 de Setembro, o ataque à revista francesa, um ato de terrorismo covarde e condenável, é o pretexto aguardado para o endurecimento das relações com os povos árabes. A marcha em defesa da "liberdade de expressão", cujos alguns participantes são diretamente responsáveis por genocídios de populações inteiras, além de censura e manipulação da mídia em seus próprios países, traz velada a mensagem de que duros tempos estão por vir.

O "perigo vermelho", que antes justificava as intervenções e guerras imperialistas, agora é chamado de "guerra ao terror". Os inimigos mudam de nome, mas os interesses permanecem os mesmos: busca por lucros e hegemonia cultural, proteção do mercado interno e domínio de territórios estratégicos.

O perigo é que, com o agravamento da crise, a sanha dos mercados leve o mundo à beira de uma nova grande guerra, em proporções globais.

Fiquemos com as reflexões de Camus, num prelúdio à Segunda Guerra Mundial:

“A guerra começou. Onde está a guerra? Fora das notícias em que se deve acreditar e dos anúncios que se dever ler, onde encontrar os sinais do absurdo evento? Ela não está nesse céu azul sobre o mar azul, nesses cantos estridentes de cigarras, nos ciprestes das colinas. Não é esse recente aumento de luz nas ruas de Argel. Queremos acreditar nela. Procuramos seu rosto e ela nos recusa. Somente o mundo é rei e seus rostos magníficos. Ter vivido o ódio dessa besta, tê-la diante de si e não saber reconhecê-la. Tão poucas coisas mudaram. Mais tarde, sem dúvida, surgirão a lama, o sangue, a imensa repugnância. Mas por hoje provamos que o início das guerras é parecido com os princípios da paz: o mundo e o coração os ignoram.”

Albert Camus
Setembro de 1939

Nenhum comentário:

Postar um comentário